Quando falamos em luxo, ainda é comum associá-lo ao preço, às grandes maisons, às logomarcas ou à raridade dos materiais.
Mas existe uma dimensão essencial na construção do luxo que merece ser cada vez mais observada: o saber-fazer.
A mão. A técnica. O tempo. A memória. A autoria.
É a partir desse olhar que observo duas expressões distintas da arte manual em tecido: o fuxico brasileiro e o trapunto italiano.
Duas técnicas diferentes, nascidas em contextos culturais distintos, mas que nos conduzem a uma mesma reflexão:
qual é o valor das mãos na construção do luxo?
BRASIL | O FUXICO E O SABER-FAZER NORDESTINO
No Nordeste brasileiro, o fuxico atravessa gerações.
Pequenos círculos de tecido são alinhavados, puxados e franzidos. Um gesto aparentemente simples que, quando repetido pelas mãos que dominam a técnica, transforma tecido em forma, composição e memória.
O fuxico também carrega uma relação histórica com o aproveitamento de retalhos e com saberes manuais transmitidos entre mulheres e comunidades.
Mas reduzir essa técnica à ideia de um simples enfeite artesanal é limitar sua capacidade de criação.
Na moda autoral brasileira, o estilista piauiense Weider Silveiro levou o fuxico ao centro da passarela da São Paulo Fashion Week. Em sua coleção apresentada em 2023, a técnica surgiu ligada às memórias do Piauí e foi trabalhada em uma proposta contemporânea de moda. O desenvolvimento dos fuxicos contou ainda com a participação da artesã Patrícia Gomes, do Crato, Ceará.
A presença do fuxico na passarela nos provoca.
É apenas a matéria-prima que determina o valor de uma criação?
Ou o valor também está no domínio da técnica, no tempo empregado, na autoria, no território e na narrativa cultural?
No mercado de luxo, o termo craftsmanship ocupa um espaço importante. Ele nos conduz à excelência do fazer, ao domínio técnico e à valorização de processos que não podem ser compreendidos apenas pelo custo da matéria.
É nesse contexto que observo o fuxico.
Não como uma tentativa de imitar o luxo europeu, mas como uma linguagem manual brasileira capaz de construir sua própria identidade no mercado de luxo.
ITÁLIA | O TRAPUNTO E A ALTA MODA
Na Itália, o trapunto apresenta outra forma de transformar tecido pelas mãos.
A costura delimita desenhos e áreas do tecido. O trabalho entre as camadas constrói volume e relevo.
A superfície deixa de ser plana.
O tecido ganha dimensão.
Quase uma escultura têxtil.
Uma importante referência dessa técnica no universo da alta moda está em Gianni Versace.
Em um vestido de noite da coleção Outono/Inverno 1991–92, Versace utilizou cetim trabalhado em trapunto em diálogo com renda plissada. A peça integra o acervo do Costume Institute do The Metropolitan Museum of Art, em Nova York.
O trapunto, nesse contexto, não aparece como detalhe sem importância.
A técnica participa da linguagem visual da criação.
O relevo, a textura e o trabalho construído sobre o tecido tornam-se parte da identidade da peça.
É o saber-fazer dialogando com a alta moda.
FUXICO E TRAPUNTO | DUAS TÉCNICAS, UM PONTO DE ENCONTRO
Fuxico e trapunto não são a mesma técnica.
No fuxico brasileiro, as mãos alinhavam, puxam e franzem o tecido.
No trapunto italiano, as mãos costuram, delimitam e constroem o relevo.
A conexão não está na igualdade.
Está no valor do fazer manual.
A Itália soube construir uma poderosa narrativa internacional em torno da excelência artesanal, da tradição de seus ateliês e do Made in Italy.
O Brasil também possui técnicas, territórios e saberes manuais capazes de construir narrativas próprias de valor.
E talvez esteja aí uma das discussões mais importantes para o mercado de luxo brasileiro:
precisamos reconhecer o valor daquilo que nasce das nossas mãos.
DO TECIDO AO DESIGN AUTORAL
Como curadora do Mercado de Luxo Brasileiro e designer autoral, meu interesse está justamente em observar como uma técnica tradicional pode dialogar com novas linguagens sem ter sua origem apagada.
O fuxico pode estar na passarela.
Pode dialogar com o design.
Pode encontrar a joia autoral.
Pode ocupar uma experiência de luxo.
O que define esse deslocamento não é simplesmente colocar um preço mais alto sobre uma técnica popular.
Luxo não se constrói apenas por precificação.
É necessário existir pesquisa, conceito, excelência de execução, autoria, narrativa, coerência estética e posicionamento.
É nesse campo de reflexão que o fuxico me interessa como designer autoral.
A origem nordestina não precisa ser escondida para que a técnica dialogue com o luxo.
Ao contrário.
A origem pode ser justamente o seu maior valor de identidade.
O LUXO QUE NASCE DAS MÃOS
O mercado de luxo contemporâneo nos convida a olhar além do que está visível.
Quem fez?
Como fez?
Quanto tempo existe naquele processo?
Que técnica foi preservada?
Que território aquela criação representa?
Que história ela carrega?
Um material precioso, sozinho, não constrói necessariamente uma narrativa.
Um pequeno círculo de tecido, por outro lado, pode carregar memória, território e cultura.
Quando técnica, design, autoria e excelência se encontram, a arte manual ultrapassa a matéria e pode alcançar novas linguagens no mercado de luxo.
Porque o luxo não está apenas no que se vê.
Está no que se faz.
No tempo.
Na técnica.
Na identidade.
E na história que cada criação carrega.
⚜️O LUXO QUE NASCE DAS MÃOS.
FATIMA DANTAS
Curadora do Mercado de Luxo Brasileiro
Designer Autoral Apresentadora de TV
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